Extras
Post incomum. Atendendo a inúmeros pedidos de leitores e fãs (uns 2 ou 3). Resolvi modificar o conto. Dar outro final. Fazer como na seção de EXTRAS de um dvd. E, relembrando o falecido programa VOCÊ DECIDE: É você quem escolhe o melhor final.
Para ler o texto original, só olhar um pouco mais abaixo.
Os dias passam na frente do computador. As semanas, os meses, até os anos. Edgar nunca esperou muito das coisas, da vida ou das pessoas. Mas sempre esperou por alguma coisa. Um pensamento, uma idéia, um acontecimento, um alento, um empurrão. Sua vida, no mesmo emprego, com os pouquíssimos amigos, com as mesmas refeições, nunca mudou muito. E lá estava ele, na maioria das vezes sozinho, cercado de livros, de música que ele considerava boa, voltado para pequenas tarefas, miudezas para passar o tempo. O mundo aparentemente girando em câmera lenta, e ao mesmo tempo as pessoas mudando rápido, crescendo, trabalhando mais, mudando para melhores empregos, formando famílias, criando filhos, mudando de esposa, de marido. E o Edgar continuava, insólito, certo de muitas coisas, incerto de 345 outras.
Ele dizia que queria viver para trabalhar, queria apenas trabalhar para bancar uma vidinha mais acessível, e simplesmente viver. Porque era o que tinha para fazer, viver. E todos diziam para ele aproveitar a vida, para fazer coisas legais, viajar, se aventurar, conhecer gente, e todos aqueles discursos bem conhecidos. Só que Edgar se sentia feliz, ao menos, não reclamava muito. Só aparentava uma solidão muda. Talvez fosse só o seu jeito de encarar as coisas, de se expressar.
Apesar de ser um sujeito sozinho – falava-se que ele não tinha mais família ou que os parentes moravam longe, algo assim – ele tinha uma certa simpatia. Era o tipo de pessoa que nem te importuna, nem te faz perceber grandes qualidades, ou seja, não incomodava ninguém. Sua discrição era tamanha que ele mal era notado nas festas da empresa, ou nos restaurantes, ou mesmo de pé apresentando alguma idéia nas reuniões. Às vezes, não era notado nem quando estava no ponto de ônibus, pois cansava de estender a mão, fazer sinal, e o motorista simplesmente passar direto.
As coisas ficaram bem estranhas quando Edgar ouviu o comentário: nossa, como você está pálido. Dali em diante, todos os dias acordava, se olhava no espelho e sentia a necessidade de um solzinho. Se usasse camisetas brancas, quase desaparecia. Ficava numa espécie de camuflagem transparente. Resolveu que iria à praia. Mas depois de uma hora lá, se arrependeu. Não o notavam. Era guri que corria e jogava areia nele. Gente molhada que passava se sacudindo e molhando sua pele sardenta. Não deu certo, e bronzeado foi a última coisa que ele pegou.
Os bons dias, boas tardes e boas noites começaram a ficar menos freqüentes. Ele sentia como se olhassem através dele. Passou a ouvir direto perguntas como: você viu o Edgar? Quando checava seus e-mails e sua caixa postal no celular, lia: por onde você tem andado? Por que não veio trabalhar hoje? Ele não se dava ao trabalho de responder. Achava que era uma das velhas pegadinhas, como as que fizeram em sua primeira semana de trabalho. Todos fingiram que ele não estava lá.
Até que Edgar chega na terça trabalhar. Ele se lembrava de ter deixado pilhas e pilhas de papéis para organizar. Mas sua mesa estava limpa. Sem seus brinquedos de enfeite, sem papelada, sem seu revisteiro ou sua coleção de bichos do Kinder Ovo. Ao seu redor, as pessoas passavam, desviavam, corriam, gritavam, mas não com ele. De fato ele estava invisível, intangível. E sentiu exatamente o mesmo que sentia antes: vazio, solidão. Nada havia mudado. Então, simplesmente suspirou e saiu. Caminhou e, num estalo, começou a sentir uma coisa nova. Uma liberdade interessante, uma fuga dos padrões estabelecidos pela sociedade. E, pela primeira vez em muito tempo, riu sozinho, gargalhou e gritou o mais alto que pôde. Até então, só havia sentido solidão, medo, dúvida. Agora era diferente, um mundo novo estava aberto. Alguém poderia pensar: mas agora ele está sozinho de verdade, esquecido, vai morrer na solidão. Só que Edgar não pensava assim. Agora, poderia estar entre todos, em qualquer lugar, viver junto com qualquer um. Para quem havia sido ignorado a vida toda, não seria nada complicado.
Se você estiver trocando de roupa ou tomando banho e sentir alguém te observando. Ou mesmo se você estiver guardando aquele segredinho sujo no fundo da gaveta ou de um cofre e sentir olhares ocultos. E até se você estiver falando mal de alguém e achar que há alguém ouvindo. Sim, é isso mesmo, são eles, os esquecidos. Alguém que você não deu muita atenção ao longo da vida e que foi perdendo a importância, desaparecendo aos poucos. Pode ser até mesmo o Edgar. Não dá para saber onde ele está a essa altura do campeonato. Pode sentir? Tem alguém te olhando agora e, na sua consciência, você sabe disso.
3 comentários:
pronto.
vini vidi vici
abraços
T
Na boa, eu acho que vc optou pela saida mais fácil e a mais óbvia. Não está ruim, nao interprete assim, mas eu te conheço cara, sei que vc tem um coelho na manga. Dê ao pobre do Edgar o destino que ele merece.
assim como o outro, ficou muito bom!
será q da pra vc me arrumar as outras revistas?
rss
abraço
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