Quarta-feira, Junho 20, 2007

Existência

Os dias passam na frente do computador. As semanas, os meses, até os anos. Edgar nunca esperou muito das coisas, da vida ou das pessoas. Mas sempre esperou por alguma coisa. Um pensamento, uma idéia, um acontecimento, um alento, um empurrão. Sua vida, no mesmo emprego, com os pouquíssimos amigos, com as mesmas refeições, nunca mudou muito. E lá estava ele, na maioria das vezes sozinho, cercado de livros, de música que ele considerava boa, voltado para pequenas tarefas, miudezas para passar o tempo. O mundo aparentemente girando em câmera lenta, e ao mesmo tempo as pessoas mudando rápido, crescendo, trabalhando mais, mudando para melhores empregos, formando famílias, criando filhos, mudando de esposa, de marido. E o Edgar continuava, insólito, certo de muitas coisas, incerto de 345 outras. Ele dizia que queria viver para trabalhar, queria apenas trabalhar para bancar uma vidinha mais acessível, e simplesmente viver. Porque era o que tinha para fazer, viver. E todos diziam para ele aproveitar a vida, para fazer coisas legais, viajar, se aventurar, conhecer gente, e todos aqueles discursos bem conhecidos. Só que Edgar se sentia feliz, ao menos, não reclamava muito. Só aparentava uma solidão muda. Talvez fosse só o seu jeito de encarar as coisas, de se expressar. Apesar de ser um sujeito sozinho – falava-se que ele não tinha mais família ou que os parentes moravam longe, algo assim – ele tinha uma certa simpatia. Era o tipo de pessoa que nem te importuna, nem te faz perceber grandes qualidades, ou seja, não incomodava ninguém. Sua discrição era tamanha que ele mal era notado nas festas da empresa, ou nos restaurantes, ou mesmo de pé apresentando alguma idéia nas reuniões. Passou o tempo e ninguém perguntava muito sobre ele. Foi quando notaram: o Edgar sumiu. Não, ele não viajou. Não foi para junto da família. Não teve seu corpo encontrado. Não se matou. Já faz 1 ano. Nada. Ele estava na empresa no meio de muita gente e simplesmente desapareceu. Demorou vários dias para alguém começar a procurar. Uma vez, ao folhear uma revista em quadrinhos, ele disse: queria ser invisível. Talvez tenha conseguido. Ou talvez sempre tenha sido. Afinal, ninguém nunca o enxergava. Se eu o conhecia? Se eu era seu amigo? Não, não. Essas informações são parte da investigação. E foi preciso entrevistar dezenas de pessoas para pescar os poucos fragmentos. Ainda me pergunto se esse sujeito realmente existiu. Talvez ele esteja andando por aí, invisível, tirando com a cara de todos, espiando mulheres nuas, vendo os segredos mais sórdidos de seus colegas de trabalho. A quem eu estou querendo enganar. Ele não se tornou invisível. De certa maneira, ele sempre foi.

4 comentários:

Bruno disse...

Cara, muito bacana o texto.

Acabo de ler e de certa maneira me identificar com ele, pois tem dias que me sinto um individuo invisível. Mas em minha cabeça e não na percepção das outras pessoas.

Só digo que para não desaparecer como nosso amigo relatado temos que no aventurar a cada dia. Para não ser mais um neste mundo e sim ser o conquistador do mundo. Parece rima ou frase de caminhão, mas escrevi.

Muito bacana o blog e vou continuar a ler os textos e sempre passar por aqui.

Bruno - Fenômenos.

Marcelo disse...

Rapaz, vou comentar estilisticamente: o texto passou para mim a impressão de que poderia ter sido algo maior... Acho que você poderia ter posto um pé no realismo fantástico. Deixar a história mais absurda. Pôr um amplificador na situação.

Você fez do personagem um microcosmo auto-suficiente. Isso foi bom. Como todo microcosmo, acabou se desintegrando; mas foi rápido demais! De repente, sumiu.

Podia ter trabalhado a angústia. Tipo, tragicomédia mesmo. O sujeito ficando mais e mais transparente; ou simplesmente sendo ignorado. Acorda numa manhã e vê a mesa do escritório toda arrumada, como se ele não existisse mais. Os números de identidade, totalmente apagados. E ficasse louco com isso.

Nenhum microcosmo se conforma de se ver desintegrando assim. O cara simplesmente ambicionava ser nada! Acho que isso não existe; é um argumento psicológico até ingênuo. Parece até que você quer se livrar do cara logo e ir tomar um café.

Bem, estou falando tudo isso não para detonar. É melhor se deixar construir por uma boa crítica do que se deixar destruir por um falso elogio. Se eu estivesse simplesmente dizendo que está ótimo, aí você poderia ficar meio desconfiado. "Bom, ele só consegue ir até aí mesmo, né?; melhor dizer que está perfeito"... Acho que esta não é uma boa opção.

Abraços!

Alexsander_Oliveira disse...

Ola eu sou obrigado a concordar com o Marcelo, vc criou um puta personagem e simplesmente tornou ele um nada. Tudo bem, ele até poder ser um nada, mas esta parte, assim como o marcelo disse, poderia estar calcada no realismo fantástico, o que tornaria o Edgar um pernonagem com infinitas possibilidades. Pense em leva-lo mais além, dê uma segunda chance ao cara. Isso até daria um ótimo roteiro para um curta-metragem.

emanoel henrique disse...

cara, vc ta lendo muito quadrinhos!
auhhauhauahuah
por falar nisso...
to curioso sobre a revista em q vc se inspirou. kero continuar a leitura!
abraço